Há alguns meses, no ano passado ainda, alguém levou o filho para o trabalho e largou-o em um dos lounges que usamos para reunião, onde há uma parede imensa de quadros-brancos. O garoto passou o tempo desenhando um painel lá, de uns três metros de largura, este aí da foto. O desenho continua lá, ninguém apagou. Não sei ao certo o que representa, acho que tem a ver com o Master Chief no Pólo Norte, ou sei lá, só sei que gostei da obra. É arte, certo? Ou não? Afinal, o que é arte?

Outro dia assistimos à “My Kid Could Paint That”, um documentário sobre a Marla Olmstead, aquela garotinha de 4 anos que, em 2004, fez sucesso no mercado artístico por seu talento prodígio para pintura abstrata, com exposições em galerias e quadros vendidos por milhares de dólares, até que uma reportagem do “60 Minutes” colocou em dúvida a autenticidade das obras — o fato é que, tirando os pais, ninguém viu a menina produzir um quadro à altura de seus melhores trabalhos expostos, apenas de trabalhos alegadamente inferiores.
É a esta altura que o documentário desanda um pouco. Diante das dúvidas levantadas pelo “60 Minutes”, o diretor tem uma crise de identidade, entra na história, e perde a imparcialidade que deveria nortear um documentário. Aquilo que poderia ser um questionamento sobre o elitismo pseudo-intelectual do mercado de arte abstrata, a partir do ponto de vista dos excluídos, passar a ser uma reflexão existencial sobre autenticidade e ética. Por outro lado, é interessante ver como deve ser difícil a um documentarista aproximar-se daqueles que observa sem envolver-se pessoalmente. O final é para ficar em aberto, mas é clara a posição que o diretor escolhe. Ainda assim, é um bom documentário.
Algumas das partes que mais gostei foram as da entrevista com o crítico Michael Kimmelman, do New York Times — que aparece na íntegra nos bônus do DVD. Uma coisa que ele diz é que a importância de uma obra de arte abstrata não é uma qualidade intrínseca à obra, mas depende de sua história. Ou seja, você derramar tinta numa tela não vale nada, já o Jackson Pollock, um milhão de dólares. É importante porque tem quem pague.
Comentários (4)
Se você nunca ouviu falar de Manzoni, vale a pena ler: http://www.telegraph.co.uk/news/main.jhtml?xml=/news/2002/06/30/nart30.xml
Por Ivan | março 29, 2008 10:05 PM
em março 29, 2008 22:05
HAHAHAHA! Ivan, esse daí sim devia fazer som de harpa quando... er... ia ao banheiro.
Por Thales | março 30, 2008 10:58 AM
em março 30, 2008 10:58
O mais incrível é que ele previu que as latas explodiriam e fez algumas "recheadas" com reboco de parede. O pessoal que comprou as cheias de reboco estão reclamando que foram enrolados...
Será que os museus colocam uma plaquinha na frente da "obra" em exposição? "Cuidado, mantenha distância"?
Por Ivan | março 30, 2008 11:06 PM
em março 30, 2008 23:06
E quanto mais pagam, mais importante se torna. É o valor inverso, né? Ai, ai...
Por Dedinhos Nervosos | abril 3, 2008 5:00 AM
em abril 3, 2008 05:00