No que diz respeito a línguas, poucas são tão curiosas quanto a do povo indígena pirarrã, habitantes das margens dos rios Marmelos e Maici, no Amazonas.
Calcula-se que há pouco mais de duzentos falantes ativos da língua, e a maioria não fala outro idioma.
Algumas curiosidades da língua:
Não há palavras para números, sequer para “um”. Há palavra para “pequena quantia” (hói), outra para “grande quantia” (hoí), e outra para “amontoado” (bahagisu), e só.
Não há distinção entre plural e singular.
Não há palavras para distinguir direita e esquerda. Referências a direções são sempre em termos absolutos, como “rio acima”, “rio abaixo”, etc.
Há pouca distinção de transitividade de verbos. Por exemplo, os verbos “matar” e “morrer” usam a mesma palavra, xoab.
Há palavras para “agora”, “outro dia” (que pode ser passado ou futuro), “tempão” e “tempinho”, mas não há palavras para “ontem” ou “amanhã”.
A língua não tem recursividade, o que desafia uma teoria muito aceita (até então) de que recursividade é inata a todas as línguas humanas. Recursividade é o que permite usar uma sentença embutida como elemento de outra. Por exemplo, em “o menino é dono do {cachorro que latiu}”. Em pirarrã você teria que dizer algo como “o cachorro latiu; o menino é dono do cachorro”.
O que mais me chamou a atenção, porém, é que a língua tem empirismo embutido. A declinação dos verbos requer sufixos que evidenciam como o locutor adquiriu a informação, se por observação direta, dedução, ou comunicação de terceiro. Em pirarrã não há como deixar a origem da informação ambígua.
Uma língua ímpar assim só poderia vir de uma cultura peculiar.
Eles são bem pragmáticos, importando-se apenas com coisas que possam ser observadas diretamente.
A sociedade é anarco-comunista. Não há hierarquia social ou chefes.
Eles não têm arte. O pouco de arte que produzem são amuletos e desenhos simples para repelir “maus espíritos”. Porém, tais “espíritos” são sempre coisas tangíveis: por exemplo, animais selvagens.
Eles não têm mitos de criação do mundo.
Eles não têm deuses.
No livro “
Don”t Sleep, There Are Snakes” (Não Adormeça, Há Cobras), o lingüista e missionário Daniel Everett conta o tempo (7 anos ao todo) que passou vivendo em meio aos pirarrãs, estudando a língua e tentando catequizá-los, e como o processo transformou profundamente sua visão do mundo: ele perdeu a fé e tornou-se ateu.
Tem um vídeo de uma palestra dele
aqui.