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Rifle de Chekhov


****** Aqui há possíveis spoilers de Avatar, The Dark Knight, Jurassic Park e Adaptação. Prossiga por conta e risco próprios... ******

OK, apesar do pessoal que leva o filme mais a sério do que deve, o fato é que Avatar é bem legal, ainda mais em IMAX 3D.

A qualidade dos efeitos especiais é um marco da tecnologia cinematográfica. O filme representa uma mudança nas regras do jogo daquilo que é possível mostrar na tela. Algo assim da envergadura do que foi Guerra nas Estrelas em 1977.

Por outro lado, a história de Avatar é, convenhamos, fraquinha. Guerra nas Estrelas, apesar de emprestar vários arquétipos mitológicos prontos, tinha mais imaginação. A história de Avatar é uma enorme coleção de “Rifles de Chekhov”.

Um “Rifle de Chekhov”, assim como um “Deus Ex Machina”, é um fórmula literária básica, um artifício para desenvolver tramas.

“Deus Ex Machina” vem das peças do teatro grego clássico, onde era comum usarem uma engenhoca para içar um ator ao palco, no papel de um deus, para salvar o herói bem no último instante. Era o “deus da máquina”.

Com o tempo o termo virou sinônimo de qualquer solução mirabolante que entra abruptamente em cena para resolver um impasse.

Exemplo: aquele tiranossauro que surge no final de Jurassic Park, bem a tempo de salvar a turma de virar almoço de velociraptor. Clássico “Deus Ex”.

Um “Deus Ex” é considerado uma saída chula, quase uma trapaça. No ótimo Adaptação, de 2002, o personagem Robert McKee sugere ao protagonista, que está tentando adaptar um livro para o cinema, que o mais importante é achar um final marcante para a história, mas que ele “não ouse usar um ‘deus ex machina’”, pois a solução dos conflitos deve vir dos próprios personagens. O interessante é que, mais adiante, o próprio filme tem um descarado “Deus Ex” — bem usado aí, dado os múltiplos níveis de auto-referência que Adaptação contém.

Já o dispensável O Escapista, coincidentemente protagonizado por Brian Cox, o mesmo ator que fez Robert McKee em Adaptação, tem aquele tipo de “Deus Ex” mais miserável e barato que existe, aquele em que “tudo não passou de um sonho”. Aliás, como o protagonista se ferra no final (e a platéia também), está mais para um “Diabolus Ex Machina”.

Estraguei O Escapista para você? Disponha. É um filme ruim a menos para você ver.

Mas eu divago...

Quando você não quer que o “Deus Ex” fique tão na cara, uma saída é “cantá-lo” antes da hora. Daí ele vira um “Rifle de Chekhov”.

O dramaturgo Anton Chekhov que disse que “não se coloca um rifle em cena se não há a intenção de dispará-lo mais tarde”. É o princípio da economia de detalhes: nenhum detalhe deve ser desperdiçado. A implicação óbvia, para a platéia, é que o aparecimento de um rifle em cena implica em seu uso adiante.

Um “Rifle de Chekhov” é basicamente a introdução conspícua de um detalhe que terá importância crucial mais tarde na trama.

O exemplo clássico são os itens de equipamento (os gadgets) que o agente James Bond recebe do Serviço Secreto britânico ao início de cada missão. Já notou que, não importa quão especializado cada item seja, Bond sempre usa todos eles? Você sabe que o filme não terminará até que Bond tenha usado cada gadget pelo menos uma vez.

Outro exemplo está em Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight). A certa altura Bruce Wayne dispara acidentalmente lâminas embutidas na vestimenta nova de Batman, durante a inspeção do equipamento. Há até uma piada sobre ele “ler o manual antes”. Tremendo “Rifle de Chekhov”. Mais tarde as mesmas lâminas são decisivas para salvá-lo do perigo.

Nem todo “Rifle de Chekhov” serve para defletir potenciais “Deus Ex”, porém. Pelo contrário, uma boa história não distrai com detalhes sem importância. O uso do dispositivo ajuda a criar momentos de premonição sombria, ironia do destino, justiça poética, suspense, sincronicidade, etc.

Esse não é o caso de Avatar, porém. Já da premissa do filme, antes mesmo de entrar no cinema, a gente sabe que até o final o herói terá passado permanentemente para o corpo do avatar — ou sua “jornada de transcendência” não estaria completa, oras; o círculo precisa fechar. Logo, dado que isso vai acontecer muito provavelmente, todo o resto que precede é simplesmente uma desculpa para que aquilo aconteça. O arsenal de “rifles” que desfila em Avatar existe basicamente para explicar a lógica por trás daquela última cena. Aliás, de certo modo o maior “rifle” do filme é justamente a expectativa de que a transferência definitiva acontecerá, daí tudo fica muito previsível.

Ah, e não vamos esquecer o super “Deus Gaia Ex” que acontece perto do final (apesar de ele ter sido “cantado” antes).

P.S.

  • O filme já arrecadou 2 bilhões de dólares, logo alguma coisa certa tem. A história, se simplista, torna o filme mais acessível. Seria arriscado fazer um filme tão inovador em termos técnicos com uma história marginalmente mais complicada.

  • Eu conheço clichês cinematográficos demais para meu próprio bem...

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    Esta é uma página do blog publicada em fevereiro 5, 2010 3:43 PM.

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