Segredo
Fable foi um dos meus videogames favoritos. Nele controlei as ações de um herói, em sua jornada entre o bem e o mal, em um mundo de fantasia baseado na mitologia clássica dos RPG.
Quando joguei, optei pelo caminho do bem: salvei donzelas em apuros, protegi os fracos, libertei os oprimidos, fui misericordioso com rivais formidáveis. O herói era tão bom que, a certa altura, passou a ostentar uma auréola, e um facho de luz descia do céu sobre ele.
Perto do final, o herói confrontou o dilema de escolher entre salvar a vida da irmã cega, ou ficar com a “Aeons Gladius”, a espada mais poderosa e valiosa do mundo, capaz de aniquilar um troll de pedra em três golpes.
Não tive dúvida, escolhi a espada — primeiro, é só um jogo; segundo, que jogue a primeira pedra quem já enfrentou um troll de pedra.
Tal decisão custou-me todos os pontos de bondade. Todo o bem que fizera até então, todo o prestígio e índole acumulados, automaticamente anulados por tamanha demonstração de ganância. Perdi toda a moral, instantaneamente.
Há algum tempo, o mesmo aconteceu com a Oprah Winfrey, quando ela decidiu promover “O Segredo”, a obra de auto-ajuda mais vigarista de todos os tempos.
O apoio da apresentadora transformou “O Segredo” em sucesso absoluto de vendas. Oprah trocou a moral pelo metal.




