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julho 23, 2007

Segredo

Fable foi um dos meus videogames favoritos. Nele controlei as ações de um herói, em sua jornada entre o bem e o mal, em um mundo de fantasia baseado na mitologia clássica dos RPG.

Quando joguei, optei pelo caminho do bem: salvei donzelas em apuros, protegi os fracos, libertei os oprimidos, fui misericordioso com rivais formidáveis. O herói era tão bom que, a certa altura, passou a ostentar uma auréola, e um facho de luz descia do céu sobre ele.

Perto do final, o herói confrontou o dilema de escolher entre salvar a vida da irmã cega, ou ficar com a “Aeons Gladius”, a espada mais poderosa e valiosa do mundo, capaz de aniquilar um troll de pedra em três golpes.

Não tive dúvida, escolhi a espada — primeiro, é só um jogo; segundo, que jogue a primeira pedra quem enfrentou um troll de pedra.

Tal decisão custou-me todos os pontos de bondade. Todo o bem que fizera até então, todo o prestígio e índole acumulados, automaticamente anulados por tamanha demonstração de ganância. Perdi toda a moral, instantaneamente.

Há algum tempo, o mesmo aconteceu com a Oprah Winfrey, quando ela decidiu promover “O Segredo”, a obra de auto-ajuda mais vigarista de todos os tempos.

O apoio da apresentadora transformou “O Segredo” em sucesso absoluto de vendas. Oprah trocou a moral pelo metal.

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setembro 14, 2007

Processologia

Fechamos o planejamento para a primeira fase do Windows 7.

Pergunto a um colega se ele terminou o plano de design. Ele diz que sim, mas que deixou “um ou outro item menor de fora”, porque tais itens dependem de detalhes “difíceis de antecipar agora [durante o planejamento]”, mas que, de outro modo, são tão “simples e de baixo risco” que poderão ser executados [sorrateiramente] como parte dos itens maiores, mais tarde, quando houver maior clareza dos parâmetros.

Sei... e se todo mundo fizer assim? “Ninguém faz assim”, ele disse.

Mentira! Todo mundo faz assim.

Ao contrário do que parece intuitivamente, desenvolvimento de software é uma atividade muito mais empírica do que dedutiva, e como tal resiste arrogante a tentativas de previsão e planejamento prévio — você só sabe o tamanho do buraco quando estiver dentro dele —. Mas o “processo” pressupõe a existência de clarividência — se a previsão errou, é você que não soube prever, não a atividade que é inerentemente imprevisível —, e só aceita “previsibilidade e clareza” no texto, de modo que “imprevisibilidade e incerteza” ficam de fora do plano — é quase como se não existissem.

No final, há um número desconhecido destes itens “simples e de baixo risco” pelo caminho, mas eles ficam fora do plano porque o “processo” não admite sua existência.

É como se alguém soubesse da existência de uma mina em um pasto, mas como não sabe sua posição exata, e o mapa exige exatidão, deixa a informação de fora — o risco é pequeno, enfim —. Só que muita gente sabe, independentemente, da existêcia de muitas outras minas. No final o mapa diz que é uma pradaria, mas o que você tem é um campo minado. Boa sorte!

abril 19, 2008

@#$!^&*(-~!!!

Qual é, esse tal aquecimento global que falam tanto vem ou não vem?

Sério, dá para acreditar num clima assim?

A última vez que nevou tão tarde no ano, aqui na região, foi em 72 — e dois dias mais cedo do que este ano.

Ontem, dirigindo na neve, o carro derrapou e acertou o meio-fio. Agora as rodas estão desalinhadas, cada uma querendo ir para um lado. Acho que vou aproveitar e trocar por um Hummer. Para garantir, também vou tacar fogo numa floresta — fazer minha parte, sabe?

É claro, é brincadeira, mas o fato é que este clima me deixa para baixo. Neste momento estou no segundo estágio do luto: raiva.

Luto pela Primavera.

junho 4, 2008

Deprimente

Comentário de um colega durante o almoço, enquanto lamentávamos o tempo fechado e chuvoso lá fora:

— Se você quiser ver algum verão este ano, melhor ir pegar o inverno no Brasil.

junho 26, 2008

A César...

Um certo diretor, de um certo grupo de desenvolvimento, de uma certa empresa de software aí, veio com o seguinte desafio: que durante esta semana cada desenvolvedor do grupo conserte mais bugs do que ele [o diretor]. Ele estima consertar 3 bugs até o fim de semana. Daí, na próxima segunda-feira, ele enviará um e-mail com a lista de quantos bugs cada um do grupo consertou, para ver quem conseguiu mais.


Idéia bacana para incentivar o grupo, não? Eu garanto que o número de consertos aumentará.


Mudando de assunto, você sabe por que o orçamento de um batalhão do corpo de bombeiros não é vinculado ao número de incêndios que eles apagam? Porque isso desestimularia atividades de prevenção de incêndio. Batalhões que trabalhassem em prevenção teriam menos incêndios para apagar, logo ganhariam menos verbas para investir em trabalhos de prevenção.


Quando você paga por incêndio apagado, você consegue não apenas que se apaguem mais incêndios, você também consegue mais incêndios, ponto.

junho 27, 2008

A César - 2

Sobre aquele caso de ontem, a coisa continua melhorando.


Hoje um dos líderes de desenvolvimento daquele certo grupo, daquela certa corporação, não apenas aceitou o desafio do diretor, como assinou embaixo. Para adicionar mais “tempero à disputa” — nas palavras do mesmo — ele incrementou o desafio para seu time, para que cada um de seus desenvolvedores conserte mais do que 5 bugs até a próxima segunda-feira, que é a meta que ele espera atingir ele mesmo.


Ele até gastou tempo fazendo um gráfico pizza no Excel.



Como você sabe, nada bate a eloqüência de um gráfico pizza na hora de representar uma fração simples.


Uma imagem vale por mil palavras — desculpe se não fiz um gráfico pizza para facilitar a compreensão desta idéia; você terá que se esforçar um pouco.


É claro, tudo isso é uma situação hipotética, imagine. O que você pensou?


Afinal, qualquer um que tenha lido qualquer livro sobre gerência de projetos de software sabe que é uma péssima idéia avaliar desenvolvedores pelo número de bugs que eles resolvem, pois isso cria um incentivo perverso que apenas resultará em mais bugs. E você nem precisa que seus desenvolvedores sejam particularmente maliciosos ou trapaceiros, pelo contrário, eles podem ser os mais bem intencionados e profissionais do mundo, basta que você incentive os resultados errados.


Por exemplo, imagine um desenvolvedor hipotético nesta situação hipotética — vamos chamá-lo de... er... Telles.


Esta semana Telles consertou três bugs. Para cada um Telles criou também um teste automatizado, para verificar o conserto. Testes automatizados não são necessários para declarar o conserto feito, e tomam tempo para criar, mas, a longo prazo, são uma solução muito barata e eficiente para garantir a qualidade do produto.


Hoje Telles consertou outro bug. Ele não tinha dúvida de que a melhor opção seria criar um teste automatizado para acompanhar o conserto... até o momento em que o diretor e o líder fizeram o desafio pressionando por números. Agora Telles não tem dúvida de que a melhor opção é consertar o bug o mais rápido possível e seguir em frente. Afinal, de nada adianta investir em qualidade futura se ele não conseguir uma boa avaliação de performance agora. Telles não está sendo particularmente maligno ou trapaceiro — afinal, a criação de testes automatizados é opcional. Ele está apenas reagindo aos incentivos e condições presentes.


Ironicamente, porque a qualidade não tende a melhorar, os bugs continuarão vindo em grande número, o que apenas confirmará a decisão que o diretor e o líder tomam agora: “Se não tivéssemos pressionado por números daquela vez, hoje teríamos ainda mais bugs para consertar”.


Ainda bem que é uma situação... coff-coff... hipotética.

julho 29, 2008

Stop de insanity!

Como seria o sinal de “Stop” se fosse bolado por um comitê de uma grande corporação?




Esse vídeo seria muito engraçado, não fosse tão triste. Se você acha que esse tipo de coisa não acontece, é porque não trabalha na mesma empresa que eu.

agosto 30, 2008

Oh Damn It!

outubro 1, 2008

Arte

No cruzeiro em que viajei dias atrás, tinha leilão de arte.

A empresa dona do cruzeiro compra quadros às pencas para decorar seus navios, daí leiloa as sobras. Dá para ter uma idéia.

Até que havia um e outro quadros bons, se bem que não muito do meu gosto, mas na média as obras eram muito, muito bregas.

Tão bregas que aquelas minhas fotos de bolha estariam em pé de igualdade lá no meio.

Os norte-americanos são muito, muito bregas.

Mas há ocasiões em que você se surpreenderia...

Um dia, passando pelo deck onde acontecia um leilão, ouvi a mestre leiloeira anunciar:

— Agora gostaríamos de oferecer estes Matisses originais...

O quê? Um Matisse original? Um não, mais do que um, e num leilão de cruzeiro? E logo Matisse, sobre quem li ainda outro dia? Imagine a sorte de eu estar passando por ali bem naquele momento. É claro que tive que parar para ver.

— Você poderá ter um “Matisse” original em sua sala.

Uau!

— Do pintor Paul Matisse.

Paul Matisse? Paul?

Não era Henri Matisse não?

— Paul Matisse, neto do famoso pintor Henri Matisse.

What the $%!$@#@&*! Que tipo de pilantragem é essa? Vai ter cara-de-pau assim lá na %$#^*@!.

— Reconhece-se o estilo do avô nas pinturas.

Ah, e nem estilo próprio o larápio tem.

Que enganação! Que descaramento! O que é isso, leilão paraguaio? Por acaso teria aí também um quadro de Juquinha Van Gogh, bisneto do primo de segundo grau do pintor pós-impressionista Vicent Van Gogh, para incluir como brinde no pacote? Tipo, “compre três Matisses e leve um Van Gogh de graça”.

Bando de pilantras!

No final, nenhum dos Matisses... er... “originais” recebeu qualquer lance. O pessoal pode ser brega, mas não é burro...

Mas há ocasiões em que você se surpreenderia...

novembro 17, 2008

A gente não falha (a não ser epicamente)

Eu queria documentação sobre a macro __FUNCTION__ do C++, então fui procurar no MSDN, o site da Microsoft focado em desenvolvimento de software.

O que são macros do C++ não vem ao caso, você só precisa saber que isso existe, que há uma de nome __FUNCTION__, e que o MSDN é o principal site de referência para quem usa C++ para programar para o Windows.

Fiz a busca. O autocomplete até entrou em ação e me fez acreditar, por alguns segundos, que o site realmente sabia o que eu queria. Mas daí os resultados vieram e não tinham nada a ver com a busca. Aliás, não podiam estar mais longe do alvo.

O problema, veja só, é que o site ignora os caracteres de sublinhado no início e fim do termo, de modo que você acaba buscando mesmo por “function”, que é muito, muito, muito genérico.

Até entenderia se fosse uma busca no live.com, o site geral de busca da Microsoft, mas o MSDN é específico a um domínio, o de desenvolvimento de software. Se há uma coisa que a ferramenta tinha que fazer certo é diferenciar terminologia das linguagens de programação suportadas pela Microsoft.

Então resolvi procurar pelo Google. Para provocar, ao invés de clicar no botão “Google Search”, cliquei no “I’m Feeling Lucky”. O Google achou uma página de primeira! Adivinha em qual site?

:), mas :(

março 15, 2009

Super Descarga

Eis a descarga de privada de banheiro mais poderosa do mundo! Pelo menos é o que a propaganda diz. A propaganda também não diz muito sobre o encanamento ao qual tal descarga tem que estar conectada.

Mas enfim, qual o punch line?

É que essa é a privada que a AIG usa...

junho 26, 2009

Faz Favor

O defunto nem esfriou e já tá circulando e-mail fraudulento na rede com link para "vídeo inédito do último trabalho do cantor". É vírus, obviamente. Nem para esconder a extensão ".exe" na URL os caras se dão ao trabalho.

Recentemente rolou uma farsa na internet que uma empressa russa estava oferecendo passagens em cruzeiros marítimos pela costa da Somália para caçar piratas. Muito bom para ser verdade. Pena que era mentira. Pena que não há um safári para caçar spammers de e-mail. Eu pagava para participar de um.

agosto 25, 2009

Manda Bala

Você já ouviu aquela piadinha do “estava com vontade de trabalhar, daí sentei no sofá e esperei a vontade passar?”

Aqui vai uma variação dela: Estava com saudades do Brasil, então sentei no sofá para assistir a “Manda Bala”, documentário do diretor Jason Kohn, e a saudade passou.

O filme, de 2007, é um documentário estadunidense sobre a violência e corrupção no Brasil, com um certo enfoque no ponto de vista dos próprios brasileiros. O documentário entrelaça diferentes histórias relacionadas à indústria dos seqüestros e aos casos de corrupção de Jáder Barbalho, que é apresentado como exemplo do ponto a que a corrupção institucionalizada, e sua tolerância, chegam no país.

Alguns brasileiros (e talvez gente de qualquer nacionalidade, efim) têm essa de não gostar quando estrangeiros falam mal do país, que estes não têm tal direito, que é exagero ou intriga, que os relatos são manipulados, que eles deviam olhar para o próprio umbigo antes de falar mal de outros. É como achar ruim que um careca aponte para nossa cabeça e diga que nosso cabelo está em chamas, quando nosso cabelo só está em brasa. É como se o Brasil fosse necessariamente OK, logo qualquer conclusão contrária é necessariamente errada. Afinal, corrupção e crime existem em qualquer lugar do mundo, não?

Fala sério! Tudo bem, talvez haja exagero e manipulação, mas mesmo quando se dá o devido desconto, mais bônus, ainda assim os níveis de criminalidade e corrupção no Brasil são absurdos para gente de país desenvolvido. O mais doloroso é a impressão que um longo tempo vivendo fora do país deixa, da resignação com que os próprios brasileiros aceitam tais problemas como dificuldades inescapáveis da vida.

Ainda tenho saudades dos amigos e da família, porém...

agosto 27, 2009

Visualizar

Se há algo que fere meus neurônios gramáticos (que já são poucos, diga-se) é o uso abusivo (e incorreto) de “visualizar” com o sentido de “ver” em e-mails e sites em português. Por exemplo:

“Clique aqui para visualizar a página”

Ao invés de:

“Clique aqui para ver a página”

UAU! Que chique!

Não! Deixa eu frisar melhor...

U-A-U! Chiquéééérrimo!

Imagine, “visualizar” é muuuuito mais sofisticado que “ver”! É mais chique, profissional, erudito, culto, elegante. “Ver” é verbinho chulo, de escola primária. Coisa de amador. Mas “visualizar”, não! De jeito nenhum! Para escrever “visualizar” você precisa de terno e gravata! Você precisa de MBA com pós-doutorado e credencial da Academia Brasileira de Letras. Uau! Você não nasceu para escrever “ver”, não senhor! Você nasceu para escrever “visualizar”!

E uma página de “visualizar” só pode ser BILHÕES de vezes mais sensacional que uma página só de “ver”. Eu disse bilhões? Eu quis dizer TRILHÕES! Tipo assim, deve conter a receita da cura do câncer, ou uma foto de Deus menino criando o Universo! Eu nem pensaria em gastar clique com página só de “ver”, mas com uma página de “visualizar”, nossa, como posso não clicar? Eu tenho que clicar!

***

Para começar, “visualizar” significa “converter em imagem real ou mental algo que não é diretamente visível”. Por exemplo, “Pedrinho visualizou (imaginou) um mundo sem fronteiras”. Ou então, “Joãozinho traçou um diagrama para visualizar a arquitetura do sistema”.

Tudo bem que, de um ponto de vista estritamente técnico, uma página web pode ser considerada a “visualização” do código digital que descreve a página. Do ponto de vista prático, porém, quem visita uma página web raramente preocupa-se com os aspectos qualitativos do código digital por trás dela, apenas com a imagem final na tela ou papel, diretamente. Logo, quem abre uma página web (ou e-mail, ou foto digital, ou vídeo), abre para “ver”, não para “visualizar”.

***

É isso, a gente se visualiza por aí.

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