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Geek Archives

junho 27, 2008

A César - 2

Sobre aquele caso de ontem, a coisa continua melhorando.


Hoje um dos líderes de desenvolvimento daquele certo grupo, daquela certa corporação, não apenas aceitou o desafio do diretor, como assinou embaixo. Para adicionar mais “tempero à disputa” — nas palavras do mesmo — ele incrementou o desafio para seu time, para que cada um de seus desenvolvedores conserte mais do que 5 bugs até a próxima segunda-feira, que é a meta que ele espera atingir ele mesmo.


Ele até gastou tempo fazendo um gráfico pizza no Excel.



Como você sabe, nada bate a eloqüência de um gráfico pizza na hora de representar uma fração simples.


Uma imagem vale por mil palavras — desculpe se não fiz um gráfico pizza para facilitar a compreensão desta idéia; você terá que se esforçar um pouco.


É claro, tudo isso é uma situação hipotética, imagine. O que você pensou?


Afinal, qualquer um que tenha lido qualquer livro sobre gerência de projetos de software sabe que é uma péssima idéia avaliar desenvolvedores pelo número de bugs que eles resolvem, pois isso cria um incentivo perverso que apenas resultará em mais bugs. E você nem precisa que seus desenvolvedores sejam particularmente maliciosos ou trapaceiros, pelo contrário, eles podem ser os mais bem intencionados e profissionais do mundo, basta que você incentive os resultados errados.


Por exemplo, imagine um desenvolvedor hipotético nesta situação hipotética — vamos chamá-lo de... er... Telles.


Esta semana Telles consertou três bugs. Para cada um Telles criou também um teste automatizado, para verificar o conserto. Testes automatizados não são necessários para declarar o conserto feito, e tomam tempo para criar, mas, a longo prazo, são uma solução muito barata e eficiente para garantir a qualidade do produto.


Hoje Telles consertou outro bug. Ele não tinha dúvida de que a melhor opção seria criar um teste automatizado para acompanhar o conserto... até o momento em que o diretor e o líder fizeram o desafio pressionando por números. Agora Telles não tem dúvida de que a melhor opção é consertar o bug o mais rápido possível e seguir em frente. Afinal, de nada adianta investir em qualidade futura se ele não conseguir uma boa avaliação de performance agora. Telles não está sendo particularmente maligno ou trapaceiro — afinal, a criação de testes automatizados é opcional. Ele está apenas reagindo aos incentivos e condições presentes.


Ironicamente, porque a qualidade não tende a melhorar, os bugs continuarão vindo em grande número, o que apenas confirmará a decisão que o diretor e o líder tomam agora: “Se não tivéssemos pressionado por números daquela vez, hoje teríamos ainda mais bugs para consertar”.


Ainda bem que é uma situação... coff-coff... hipotética.

julho 2, 2009

Star Trek, Hoje e Ontem

Gostei tanto do Star Trek novo, o do J.J. Abrams, que decidi rever a série original, aquela dos anos 60, pelo Netflix.

Netflix é uma empresa que aluga filmes em DVD pelo correio, mas recentemente eles expandiram para oferecer filmes pela internet também, via streaming. Você pode assistir aos filmes pelo computador ou, no nosso caso, pelo XBOX. O catálogo disponível é bem mais limitado que o catálogo de DVDs, mas é melhor do que nada, e por “nada” quero dizer, ir na Blockbuster pegar filme.

Um dos títulos disponíveis é a primeira temporada inteira da Star Trek original. A série foi “remasterizada” em alta-definição, com muitas tomadas novas de efeitos especiais. As cenas no espaço, por exemplo, são todas novas.

Se você pensa em rever a série original, faça um favor a si mesmo... desista! É muito ruim, gente! E não é ruim porque os enredos sejam ingênuos, ou as atuações exageradas. É porque o negócio é chato de doer, um tédio só. Os poucos episódios a que tentei assistir, acabei dormindo no sofá. Funciona muito bem como sonífero — se for o que você estiver buscando. Caso contrário, sugiro passar.

Quanto às tomadas novas de espaço, elas são obviamente melhores no quesito visual, mas fora isso continuam com os mesmo erros grosseiros de sempre. Por exemplo, qual o problema óbvio na seqüência de quadros da tomada abaixo, que mostra a Enterprise em órbita da Terra?

O problema é a perspectiva. O raio da órbita de uma espaçonave é tão imensamente maior que a própria nave que, na escala da nave, a órbita é quase uma reta. Se você não vê um navio fazer uma curva tão pronunciada na superfície do oceano, por que você veria uma espaçonave fazer tal curva numa órbita de raio ainda maior? Para fazer essa curva aí, a Enterprise teria que ser gigantesca, coisa assim do tamanho do Texas. E isso me faz pensar, será que há algo como “ser nerd demais até para ver Star Trek”?

julho 23, 2009

DNA

Simplesmente fantástica essa animação que mostra como a molécula de DNA é copiada no interior da célula. Sinto-me como um garotinho de 5 anos visitando a cabine de um avião a jato pela primeira vez. Uou! O jeito como um dos lados da molécula é copiado de trás para frente, então, é de fundir os miolos.

E este outro vídeo aqui, tão deslumbrante quanto, mostra como proteínas são sintetizadas a partir do DNA. Fascinante!

agosto 28, 2009

Freqüência VS. Expectativa – Loteria

Outro dia escrevi sobre a diferença entre freqüência e expectativa, e que há situações em que a freqüência de fracassos é altíssima, mas o custo de cada tentativa é tão pequeno, e os benefícios de um raro sucesso são tão altos, que a expectativa ao longo do tempo é de ganho — e, nestes casos, vale a pena continuar tentando.

Pois bem, loteria NÃO É um destes casos.

Em qualquer loteria, tanto freqüência quando expectativa (de sucesso) são baixas. A longo prazo, sua expectativa é de perder dinheiro.

Uma maneira de ver isso é assim: se você jogar todas as combinações possíveis de uma só vez, de modo garantir o acerto absolutamente, o que gastará em apostas será bem mais do que o prêmio que receberá.

O valor do prêmio multiplicado pela probabilidade de acerto é menor do que o valor da aposta.

Se jogar na loteria fosse um negócio com expectativa de lucro, veríamos grandes investidores aplicando muito dinheiro em apostas. Loteria só é um bom negócio para o Estado e as casas lotéricas. É por isso que muitos dizem que loteria é um imposto pago pelos ruins de matemática.

É claro que, se você acredita em sorte ou destino, não serão as probabilidades que ficarão em seu caminho.

setembro 4, 2009

Topa Ou Não Topa

Se há coisa que é garantia de causar briga com seus amigos engenheiros, matemáticos, ou demais científicos exatos, é aquele clássico problema das portas, o “Problema de Monty Hall”.

A resposta correta ao problema é tão não-intuitiva, mesmo àqueles que entendem um pouco de estatística, e principalmente a estes, que eles ficam muito, muito irritados quando você diz que a resposta óbvia deles (a mais intuitiva) está totalmente errada.

Falo por experiência própria, de já ter levado esculachos irados daqueles a quem apresentei o problema, e de ser quase chamado de idiota.

Por minha vez, só escapei de chamar de idiota quem me apresentou o problema porque tive a parcimônia de adiar meu triunfo para depois de simular a situação em software, para esfregar o resultado na cara do infeliz.

É claro que a simulação provou que o infeliz era eu, e que a resposta do cara estava correta.

Mas sacar que a resposta certa é de fato a certa traz grande satisfação intelectual, e no final todo mundo faz as pazes. Bem, pelo menos na maioria das vezes...

Enfim, o problema é assim:

Num programa de TV de prêmios, o apresentador mostra três portas fechadas ao concorrente. Uma delas esconde um carro. As outras duas escondem cabras. O concorrente escolhe uma porta. Daí o apresentador, que já sabe qual porta tem o carro, e para fazer suspense, abre outra porta para revelar uma cabra. Agora o apresentador pergunta se o concorrente quer ficar com a porta original ou trocar pela outra que permaneceu fechada. A pergunta é: vale a pena trocar de porta, continuar com a mesma, ou tanto faz?

A princípio a resposta certa parece ser “tanto faz, as chances das portas restantes são iguais”, mas esta resposta está errada. A resposta certa é que vale a pena trocar, pois a “outra” porta, aquela que o concorrente não escolheu, tem agora o dobro de chances de ter o carro.

É claro que, hoje em dia todo mundo já conhece o problema e a resposta certa.

Só que às vezes saber demais atrapalha.

Já vi muita gente confundir esta situação das portas com o jogo “Deal or No Deal”, aquele das malas com dinheiro (“Topa ou Não Topa” no Brasil), e daí achar que, numa situação em que sobrem apenas duas malas em jogo, e que uma delas contenha o prêmio de 1 milhão, então vale a pena trocar pela mala do palco, pois as chances daquela seriam maiores. Porém, a resposta certa neste caso é que “tanto faz, as chances são iguais”.

Só não diga isso a seus amigos engenheiros ou matemáticos, porque pode dar briga.

setembro 5, 2009

Para Adicionar Insulto ao Ferimento

Tirei esta foto da Adri e da Débora usando seus respectivos iPhones porque a cena me lembrou do ideal com que Bill Gates começou seu império: “um computador em cada escritório e em cada casa [rodando software da Microsoft]”.



Outro dia meu gerente foi a uma apresentação na qual disseram que a previsão para 2010 é que o mercado de iPhones será tão lucrativo quanto o mercado de Windows.

Fiquei de cara, como pode? O Windows roda em quase todos os computadores pessoais do planeta, coisa assim como 93% deles.

A previsão começa a fazer sentido quando consideramos que a margem de lucro da Microsoft por cópia do Windows é bem menor (muito menor) que a margem da Apple por iPhone. Ainda, telefones celulares tendem a ser mais pessoais que computadores: famílias onde se compartilha um computador, e cada pessoa tem seu próprio celular. No final de 2008, estima-se, havia 4,1 bilhões de assinaturas de celular no planeta. O fato é que o número de celulares cresce mais rápido que o de computadores. Todo mundo quer seu próprio celular, e se for um iPhone, melhor ainda.

Pois é, acho que alguém esqueceu de atualizar aquele ideal do Bill para “um celular para cada pessoa [rodando software da Microsoft]”. Se atualizaram, foi um pouco tarde.

Detalhe: a foto acima tirei com meu celular, adivinha qual.

novembro 19, 2009

Japão - Tecnologia

Lá em Tóquio, nerd que sou, fui ao Miraikan, o museu de Ciência Emergente e Inovação.

A coisa mais legal que vi lá foi, sem dúvida, a demonstração do ASIMO, o robô da Honda.

asimo.jpg

O engenheiro em mim, que aprecia a complexidade técnica do problema, ficou fascinado. A criança em mim, porém, ficou um tanto desapontada. O ASIMO é uma ótima demonstração do que a tecnologia atual é capaz, mas é pouco perto das promessas futurísticas que nos foram feitas quando éramos criança. Onde é que estão aqueles robôs? Falta muito ainda para eles.

Teve uma hora na demonstração que o ASIMO chutou uma bola. Tem idéia de quão complicado é construir um robô bípede capaz de chutar uma bola sem perder o equilíbrio? É complicadíssimo. E no entanto, nos poucos segundos antes do chute, eu quis acreditar, ardentemente, que ele sairia fazendo embaixadas. Já imaginou?

janeiro 12, 2010

Sobre o branco dos olhos

Aproveito a visita ao Brasil para matar saudades de Mae West, a cachorrinha da família.

Mesmo depois de tanto tempo fora, e apesar de eu ter passado a maior parte da sua vida distante, ela ainda lembra de mim. Quando cheguei, ela saudou-me com aquela habitual felicidade que os caninos demonstram quando um membro da matilha retorna, tenha ele saído por 2 anos ou 20 minutos.

É a felicidade de saber que o outro ainda vive.

Quando você sai, um cão tem a esperança de vê-lo de novo, mas nunca a certeza. Como poderia? É um mundo incerto aquele lá fora.

Dois minutos depois, eu já não era novidade, mas a bagagem ainda era. Mae fez vistoria nas malas, para saber por onde andei, e que coisas trouxe.

"Tanto tempo fora, deve ter trazido um pato ou um texugo", acho que ela pensou.

Ainda bem que ela lembra de mim, porque não é muito amigável com estranhos não, pelo contrário. Como todo dachshund que se preze, Mae é vinte vezes seu tamanho em zanga e dez em coragem. Outro dia vieram uns caras da telefônica na casa, e ela não gostou nem um pouco não. Ficou uma fera com os intrusos. Tentei aplicar um Cesar Millan nela, com calma e assertividade, para desarmá-la de sua energia negativa, mas ela não gostou e tentou me morder.

Tanto eu quanto ela sabemos que ela só tentou me morder. Se quisesse mesmo, teria mordido. Só que daí eu teria "mordido" de volta, e ela sabia disso. "Lati" mais alto e ela colocou o rabo entre as pernas, fez cara de arrependida, e passou o resto da tarde chateadinha com o incidente, fazendo aquela cara de chachorro que caiu do caminhão de mundaças, sabe?

Cães são experts em fazer essas caras de coitados, que fazem a gente ficar "ohhh". Em parte porque nós mesmos, os humanos, selecionamos, ao longo da história, os cães que melhor faziam essas carinhas.

Mae faz essas caras como ninguém. Só que comigo não cola, não quando ela aprontou.

Quando ela quer apelar, ela mostra o branquinho dos olhos, raramente visíveis. Será esta outra característica selecionada para aumentar o vínculo com os humanos?

Os humanos são a única espécie primata que tem aquela parte do olho, a esclera (antiga esclerótica), branca. Os demais primatas têm escleras pigmentadas em cores que produzem menor contraste com a pele e a íris. E as escleras humanas são maiores em proporção também. Uma conseqüência disso é que é mais fácil identificar a direção do olhar de um humano à distância. Por que será? Afinal, isso tem a desvantagem de os adversários saberem para onde o indivíduo olha. Quais seriam as vantagens para compensar tal desvantagem? Uma possibilidade é que a visibilidade do olho facilite a comunicação entre humanos. Grande parte da comunicação não verbal se dá através dos olhos.

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