Indo para a revisão
Maldição, é aquela época do ano de novo. Época da avaliação de performance.
É quando a gerência avalia como foi a performance de cada um no ano que passou. Quem trabalhou bem, ou não. Quem será promovido, ou não.
E quem não quer ser promovido? Até o Bill Gates quer.
Em teoria, cada pessoa é avaliada independentemente, contra si mesma. Na prática, há uma cota limitada de promoções por ano.
Em teoria, a avaliação é objetiva. Na prática, a teoria é subjetiva: a avaliação também é um concurso de popularidade.
É a sina do herói. Quem se dá bem é quem apareceu mais. Quem salva naufrágio é mais herói do que quem faz navio que não afunda. No entanto, milagre mesmo não é quando “todos foram salvos”, mas quando ninguém precisou ser salvo em primeiro lugar — só que daí, ninguém nota.
Ou você já se importou com os bugs que o software nunca teve?
Um dos artefatos da avaliação é o relatório de performance, que é um relatório no qual você conta as coisas lindas e merecedoras que fez durante o ano, para defender uma promoção.
Nosso gerente enviou um email para o time sugerindo que não gastássemos mais do que duas horas no relatório. “Mais que isso, é porque você está escrevendo demais”.
Certo ele, porque é ele que terá que ler todos, um a um. Mas isso implica que eu gastarei quatro horas para fazer o meu: três para fazer bem, mais uma para fazer parecer que fiz em menos de duas.
Ele disse para não gastar muito tempo, mas o que ele quis dizer é para não escrever muito, o que não é a mesma coisa. Ser sucinto toma tempo. Escrever menos é mais difícil. Você quer tirar tudo o que não é essencial, mas nada além disso.
E no final, nada disso importa. Não faz a mínima diferença.
Uma vez, na faculdade, o professor chegou com o esquema elétrico de uma TV e pediu um relatório descrevendo a função de cada transistor. Puro exercício braçal. Óbvia demonstração de que ele não estava a fim de trabalhar. Valia ponto na prova. Lá pelas tantas, numa contida demonstração de rebeldia, plantei no texto um versinho: “Maria tinha um carneirinho, ele era branco como a neve, para todo lugar que Maria ia, o carneirinho ia com ela”.
Maria passou despercebida. Ganhei o ponto. Todo mundo que fez o relatório ganhou o ponto.
No final, não importa, não faz a mínima diferença.
Achar que o que você escreve no relatório de performance fará diferença em sua avaliação é tão ilusório quanto achar que você pode reconquistar alguém que está lhe dando um fora porque já está em outra. Não importa o que você diga, não faz a menor diferença, seu destino já estava decidido mesmo antes de você começar.









