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Microsoft Archives

junho 22, 2007

Indo para a revisão

Maldição, é aquela época do ano de novo. Época da avaliação de performance.

É quando a gerência avalia como foi a performance de cada um no ano que passou. Quem trabalhou bem, ou não. Quem será promovido, ou não.

E quem não quer ser promovido? Até o Bill Gates quer.

Em teoria, cada pessoa é avaliada independentemente, contra si mesma. Na prática, há uma cota limitada de promoções por ano.

Em teoria, a avaliação é objetiva. Na prática, a teoria é subjetiva: a avaliação também é um concurso de popularidade.

É a sina do herói. Quem se dá bem é quem apareceu mais. Quem salva naufrágio é mais herói do que quem faz navio que não afunda. No entanto, milagre mesmo não é quando “todos foram salvos”, mas quando ninguém precisou ser salvo em primeiro lugar — só que daí, ninguém nota.

Ou você já se importou com os bugs que o software nunca teve?

Um dos artefatos da avaliação é o relatório de performance, que é um relatório no qual você conta as coisas lindas e merecedoras que fez durante o ano, para defender uma promoção.

Nosso gerente enviou um email para o time sugerindo que não gastássemos mais do que duas horas no relatório. “Mais que isso, é porque você está escrevendo demais”.

Certo ele, porque é ele que terá que ler todos, um a um. Mas isso implica que eu gastarei quatro horas para fazer o meu: três para fazer bem, mais uma para fazer parecer que fiz em menos de duas.

Ele disse para não gastar muito tempo, mas o que ele quis dizer é para não escrever muito, o que não é a mesma coisa. Ser sucinto toma tempo. Escrever menos é mais difícil. Você quer tirar tudo o que não é essencial, mas nada além disso.

E no final, nada disso importa. Não faz a mínima diferença.

Uma vez, na faculdade, o professor chegou com o esquema elétrico de uma TV e pediu um relatório descrevendo a função de cada transistor. Puro exercício braçal. Óbvia demonstração de que ele não estava a fim de trabalhar. Valia ponto na prova. Lá pelas tantas, numa contida demonstração de rebeldia, plantei no texto um versinho: “Maria tinha um carneirinho, ele era branco como a neve, para todo lugar que Maria ia, o carneirinho ia com ela”.

Maria passou despercebida. Ganhei o ponto. Todo mundo que fez o relatório ganhou o ponto.

No final, não importa, não faz a mínima diferença.

Achar que o que você escreve no relatório de performance fará diferença em sua avaliação é tão ilusório quanto achar que você pode reconquistar alguém que está lhe dando um fora porque já está em outra. Não importa o que você diga, não faz a menor diferença, seu destino já estava decidido mesmo antes de você começar.

junho 27, 2007

O que dizemos, e o que queremos dizer

Um colega do trabalho saiu de férias. No roteiro, uma paradinha no Tibet para ver o Everest de perto.

— Legal! E quanto tempo leva da China até o Tibet?

— Como assim? O Tibet é na China.

Eu quase respondo:

— Sim, mas diga isso para o Dalai Lama, não para mim.

Mas o que saiu foi:

— Ah tá...

Afinal, quem sou eu para defender a devolução do poder do Tibet à aristocracia teocrata e elitista dos lamas... er... digo a libertação do Tibet?

Algumas semanas antes da viagem, ele veio com essa:

— Tem uma pílula que você começa a tomar alguns dias antes de ir, para ajustar o organismo às grandes altitudes.

Não que ele fosse escalar o Everest, mas mesmo a base da montanha já é lá nas alturas, e o ar rarefeito exige mais do fôlego.

Eu quase respondo:

— Ah tá...

Mas o que saiu foi:

— Legal, mas se você parar de fumar hoje, garanto que será melhor para o fôlego do que qualquer pílula.

Ele não gostou nem um pouco.

julho 3, 2007

One Buggy Evening

Uma vez li que esculpir um leão é fácil: basta pegar um bloco de mármore e retirar todas as partes que não parecem com um leão.

Desenvolver software é a mesma coisa. Você começa com a concepção de um software que faz tudo, daí tira as funcionalidades que não parecem com algo viável, e finalmente todos os bugs que não parecem com algo usável.

Desenvolver software é basicamente consertar bugs até não poder mais, e então lançar o produto mesmo assim.

E você nunca conserta todos os bugs, porque mesmo que não haja mais nenhum, não há como saber: provar que um software não tem bugs é impossível.

Há bugs que parecem acontecer quando só você está olhando, e assim que você tenta mostrá-lo a outra pessoa, ele some. Outro dia deparei-me com um desses, e fiquei me sentindo como o cara do desenho abaixo. Lembra?

julho 4, 2007

Feng-shui


O cara chamou para mostrar o novo chafariz de mesa que instalou no escritório.

— Legal, mas esse barulhinho de água corrente, não dá vontade de fazer xixi toda hora?

Ignorando minha dúvida pragmática, ele prosseguiu:

— É que minha esposa cruzou meu aniversário com feng-shui, e concluiu que eu preciso do elemento água no ambiente de trabalho.
— Não serve uma garrafa? Tem uma na minha sala...
— Não, tem que ser água corrente.

Acho que ele percebeu meu ceticismo.

— Você não acredita em feng-shui, Thales.
— Não.
— Mas é a arte de balancear o fluxo de energia do ambiente.
— Bem... tem umas dicas de decoração, mas é só isso.
— Não é não. Por exemplo, feng-shui diz para não construir uma casa sob uma linha de alta tensão.
— Olha, eu não preciso de superstição milenar para me dizer isso...
— Feng-shui também diz para não sentar de costas para a porta do escritório, porque drena sua energia vital.
— Olha, qualquer advogado de Nova Jersey sabe que não é uma boa idéia sentar de costas para a porta. Por acaso feng-shui também diz para manter uma automática carregada na gaveta, para o caso de chegar alguém para drenar sua energia vital de surpresa? Aposto que não.

Felizmente ele estava atrasado para uma reunião e não tinha tempo para me convencer. Na pressa de sair, deu uma cotovelada na quina da escrivaninha. Saiu xingando. A julgar pela energia negativa do palavrão, o feng-shui de seu escritório tem um longo caminho pela frente.

julho 28, 2007

Windows 7

Ontem fui ao evento que deu o pontapé inicial no Windows 7, a próxima versão do Windows. Eu não posso falar dos detalhes — do que o próximo Windows terá e tal —, mas posso falar o seguinte:

  • Tem muita, muita gente trabalhando no Windows. Você não faz idéia.

  • Nesses eventos nunca tem cadeira para todo mundo. Nunca. E não é um ou outro que ficam em pé, são bem uns 5% da turma. Tudo bem que tem um monte de gente, mas será arranjar mais cadeiras?

  • Cada time tinha camiseta de cores diferentes. A nossa era vermelho rubi, uma das menos piores. Ainda bem que quem escolhe as cores das camisetas não decide o esquema de cores do Windows.

  • O Windows é que nem dieta de segunda-feira: a próxima sim, é para valer.

  • Nos intervalos havia fila no banheiro masculino, mas não no feminino.
  • Ao invés de pegar o ônibus para ir ao evento, eu e mais três caras pegamos carona com um quarto cara. O plano era estacionar no centro, próximo ao local, e almoçar em algum lugar bacana antes. A execução foi um desastre. Demoramos um tempão para estacionar (longe). Na pressa, tivemos que comer cachorro-quente numa barraquinha de rua. Finalmente, chegamos atrasados e tivemos que ficar em pé. Esse é o tipo de engenheiro que diz que o Windows sairá no prazo e com as funcionalidades planejadas.

    agosto 2, 2007

    Crônicas de Nerdia


    Uma das tradições na Microsoft é, quando alguém sai de férias, aprontar alguma com o escritório da pessoa.

    Esse aí terá uma bela surpresa quando voltar...

    agosto 29, 2007

    Gerências de Projetos

    Faz pouco, participei de um curso de gerência de projetos. Acho que só encontraria gente mais otimista em uma palestra sobre “O Segredo”. É estranho como gente esperta o bastante para rejeitar a “Lei da Atração” como besteira pseudo-científica, aceita placidamente técnicas de planejamento igualmente infundadas.

    Pegue-se, por exemplo, a tradicionalíssima modelagem PERT, que 9 entre 10 gerentes alardeiam como a melhor invenção depois do pão fatiado — nosso instrutor passou uma hora inteira falando das delícias que ela propicia, uau!

    PERT foi inventada, lá no final dos anos 50, para tocar o projeto do míssil Polaris, um exemplo raro de empreitada governamental bem sucedida: terminou antes do prazo e alguns milhões de dólares abaixo do orçamento. Tamanho sucesso foi atribuído, em grande parte, ao uso de PERT.

    Só que tem uma pegadinha aí. PERT era, acima de tudo, uma fachada burocrática [PDF]. Os gerentes do Polaris sabiam que intervenção política e supervisão dos altos escalões militares emperrariam o projeto. Com PERT, porém, eles conquistaram uma reputação de excelência gerencial, e assim ganharam carta-branca do Congresso e do Departamento de Defesa para trabalhar em paz. Na prática, porém, a papelada gerada pelo PERT só servia mesmo para manter essa aparência de solidez e confiabilidade do plano global. Para quem via de fora, a execução seguia o plano à risca, mas era o contrário.

    Vai dizer que você nunca trabalhou em um projeto assim?

    Até hoje o projeto Polaris é citado como um exemplo máximo de que PERT funciona. Tudo bem que muitos tentaram depois, e poucos obtiveram os mesmos resultados. E daí? Ao Polaris, seguiram-se os projetos Poseidon e Trident, ambos conduzidos pelos mesmos métodos gerenciais, ambos fabulosos desastres. Até hoje o projeto Trident é tido como o maior fiasco gerencial da história militar dos EUA. Mas quem se importa? Certamente ele não falhou por causa de PERT, certo? A vantagem de projetos muito complexos é que sempre há muitas opções para culpar pelo fracasso. É fácil atribuir sucesso a planejamento e fracasso a acidentes, mesmo quando a diferença entre um e outro é apenas uma questão de sorte. O número de projetos bem sucedidos é tão pequeno que qualquer método global suficientemente inócuo parece funcionar em retrospectiva — como todo vidente fajuto sabe, para prever o passado qualquer método funciona.

    Projetos acontecem de baixo para cima (bottom-up), e sucedem ou morrem nos pequenos detalhes. Mas quem vê o global quer atribuir grandes conseqüências a grandes causas — porque é mais simples.

    Ou seja, não é que PERT não funciona, é você que não soube usá-lo. E a “Lei da Atração” sempre dá certo — se não deu, é porque você não pensou positivo com competência.

    setembro 26, 2007

    Riding the Nerd Bus

    Na última segunda-feira estreou o Connector, o busão que a Microsoft colocou para transportar a nerdarada entre casa e trabalho — os que ainda não moram no escritório.

    Pois eu estava lá!

    ***

    A Microsoft já tinha um programa de passe gratuito para linhas de transporte público, mas uma diferença é que o Connector faz linha direta entre os terminais e a Microsoft, então é mais rápido.

    Americano não consegue fazer nada sem carro, nem mesmo ir pegar um ônibus. A idéia de “terminal” aqui é basicamente um mega-estacionamento onde o pessoal deixa o carro e segue de ônibus. É o que se chama de “park & ride”.

    Outra vantagem do Connector é que os ônibus são equipados com rede wireless, assim o pessoal pode ir trabalhar já trabalhando.

    Eu adorei a idéia de não precisar dirigir para o trabalho, e resolvi testar o serviço. Por enquanto, irei uma vez por semana. No dia de estréia, eu já estava lá. A julgar por esta experiência única, o serviço está aprovado.

    ***

    Um detalhe interessante: no dia da estréia, na chegada à Microsoft, tinha tenda de café da manhã com gente do Starbucks servindo cafezinho de bandeja. Essa Microsoft tem muito dinheiro.

    outubro 22, 2007

    Definições

    Hardware: aquilo que quando fica obsoleto, você chuta.

    Software: aquilo que quando fica obsoleto, você lança.

    outubro 24, 2007

    Halloween

    Halloween é semana que vem. Está logo aí. Todo ano a Microsoft faz festa para os empregados e familiares, e o pessoal traz os filhos para passear pelos escritórios e pegar doces. Há fantasias muito bonitas e criativas. As crianças adoram, é claro. É bem divertido. Até já comprei um super-pacotão de chocolate para oferecer para a petizada. Chocolate sim. Imagine se eu vou oferecer doce ruim? Depois, os filhos não são meus. Este ano vou fantasiado de dentista.

    novembro 17, 2007

    Se Engenheiros de Software Projetassem Aviões

    Desenvolvedores de software se acham tão espertos, mas adoram projetar coisas feitas de partes tão profundamente interconectadas e interdependentes entre si que é impossível separá-las umas das outras. E quando é impossível separar a parte do todo, é difícil saber o que funciona bem ou não. Desenvolvedores não conseguem testar coisas em partes, apenas na totalidade, o que os faz mais artesãos que engenheiros. Se desenvolvedores de software projetassem aviões a jato, o primeiro teste de qualquer modificação de projeto, por mais simples que fosse, seria em vôo — se o avião não explodir no ar, é porque a modificação funciona.

    Há muito tempo tenho por mim que desenvolver software é como construir aviões no ar. Você monta um avião atrás do outro, até que um deles não caia. Ao que parece, não sou o único a fazer a analogia. A diferença é que não acho que isso seja bom, nem motivo de orgulho, pelo contrário. Saca só esse comercial de uma empresa de tecnologia de informação.

    dezembro 4, 2007

    Riding the Nerd Bus 2

    O buzão da Microsoft↓ vai bem, obrigado. Tão bem que já aumentei o uso para duas vezes por semana. Só não uso com mais freqüência porque é inverno, e tenho que caminhar ainda uns 15 minutos do terminal até o prédio onde trabalho.

    Caminhar não é o problema. Quando o tempo permite, caminho também o trecho de casa até o ponto, o que dá mais uns 30 minutos. E o frio é o de menos, o que não gosto mesmo é da chuva, que, durante esta época do ano, é uma constante.

    Gosto de caminhar. Para mim, é quase uma forma de meditação. Houve época, há muito tempo, quando eu caminhava 12 quilômetros por dia, todo dia: de casa para a natação, da natação para o trabalho... ah é, e ainda fazia natação, e tomava um sorvete Mega por dia, sem culpa. Você lembra do Mega e suas 250 igualmente deliciosas calorias?

    No verão, quero ir de ônibus 3 vezes por semana. Tomara que funcione.

    Ainda não usei a conexão wireless que o ônibus tem. Sei que é inevitável, mas não estou com pressa. Já basta o tempo que passo diante do computador no trabalho e em casa. Aproveito as viagens de ônibus para colocar a leitura em dia. O nome do ônibus é Connector, mas prefiro chamá-lo de Desconnector, porque entro nele e “desconecto-me” do resto do mundo, principalmente do trânsito, e eu odeio trânsito.

    janeiro 23, 2008

    Você ganhou um cavalo gigante de madeira, aumentado

    Recentemente o restaurante do trabalho veio com uma moda de raspadinhas. Toda vez que você compra uma refeição lá, ganha uma raspadinha para concorrer a prêmios. O prêmio que mais sai é o “(café) expresso aumentado grátis” (“free upsized espresso drink”). Já tirei esse três vezes.

    Não que faça diferença, porque no escritório tem máquina de café do Starbucks, de graça. É uma maravilha. É um suprimento virtualmente infinito de café à minha disposição. Pressiono três botões e, momentos depois, sou servido de um reconfortante semi-balde de café fresquinho, quase que por mágica. Às vezes penso se minha vida não passa de um experimento em um meta-universo, eu um simples rato de laboratório sendo testado em minha busca por cafeína.


    Mas enfim, estou divergindo. De volta às raspadinhas.

    O mais cínico entre nós questionou a interpretação da palavra “aumentado” (“upsized”) na descrição do prêmio.

    — Quer dizer que eu compro um café e eles aumentam a dose?

    Não, que é isso, imagina?! É o café inteiro. Fosse só o acréscimo, seria muito fiasco.

    Fomos lá tirar a dúvida e, adivinha, era isso mesmo, era só o acréscimo. Você compra um café normal e eles adicionam uma dose extra de expresso. Tinha até um aviso no caixa explicando a situação, tanta gente já foi lá achando que ganhou um expresso na faixa.

    Mas o fiasco não parou aí. As cartelas das raspadinhas têm um número de série no verso, visível antes de raspar. Logo o pessoal descobriu que — adivinhe, isso mesmo! — o número de série permite prever o prêmio que sairá. E não é nada complicado, tipo fatorar números primos e tal. Basta olhar para o final, que é sempre o mesmo para os mesmos prêmios. Final P1 é “tente de novo”; final P6 é “café aumentado”; final P13 é “pizza”, e assim vai — aliás, o detalhe é que só o final muda, o resto do número é sempre o mesmo, para todas as cartelas.

    Não é como se ninguém soubesse que engenheiros de software têm um parafuso a menos em habilidades sociais em troca de um parafuso a mais em habilidades matemáticas, incluindo talento para identificar padrões, e a MS tem a maior concentração de engenheiros de software do mundo. Mas daí já é ridículo, o pessoal do restaurante não está nem tentando fazer de conta que se esforçou. Como é que alguém pode ter dado uma mancada tão feia dessas? Quanto tempo até formar-se uma máfia das raspadinhas?

    abril 10, 2008

    Trabalho

    wmpbar.jpg


    Pois é, falta tempo, falta disposição. O trabalho tem consumido ambos. O Comédia Player em particular — para quem não sabe, sou engenheiro de software no time do Windows (Co)Media Player

    E não, não é divertido, e não estou rindo. A “comédia” aí está mais para a divina, de Dante, do que para “rarará, que legal”.

    É uma descida ao inferno.

    ****

    O Comédia Player é um dos componentes mais complexos do Windows. E não é porque precise ser. É apenas porque foi assim que ele cresceu: cheio de complexos.

    Analisávamos uma parte do código do Comédia quando alguém disse que aquilo parecia aquelas armadilhas que o Coiote arma para pegar o Papa-Léguas, lembra? O estilingue derruba o regador, que água a flor, que acende a dinamite, que lança a bota, que ativa a alavanca, que solta o ratinho, que... você começa a seguir o problema pela manhã e, ao fim do dia, andou um monte, mas continua tão longe da causa quanto sempre esteve.

    Onde mais vi isso mesmo?

    Ah sim, Lost! É isso, depurar o código do Comédia Player é como acompanhar Lost: quando você acha que o próximo passo esclarecerá algo, o que encontra são apenas mais dúvidas.

    ****

    O Comédia é um holograma: todas as partes são interconectadas a todas as outras. Você aperta um botão aqui e ouve uma buzina tocar lá no outro lado do labirinto. É impossível separar qualquer pedaço. Uma vez tentei extrair uma parte, para testá-la em isolado, mas ela dependia de outras, que precisei tirar junto, e estas puxaram outras, e aquelas, mais outras. No final meu teste incluía uma cópia quase completa do Comédia inteiro. É como se para testar uma lâmpada você precisasse construir um gerador antes, porque a lâmpada não funciona com qualquer eletricidade, sabe?

    É como se para testar um parafuso você precisasse enviar um foguete à Lua.

    Sugeri convidarmos a equipe do “Dirty Jobs” para filmar a gente trabalhar no Comédia. O pessoal riu, até perceberem que eu falava sério, daí ficaram todos quietos, tristes. Alguns choraram.

    ****

    O Comédia é um fractal: cada parte é tão complexa quanto o todo, ad infinitum.

    O design do Comédia é totalmente bottom-up, empírico, na base do “mexe até funcionar”.

    Onde mais vi isso mesmo? Ah sim, Seleção Natural!

    Há pessoas que olham para um bicho e inferem dele um “design inteligente”. Para tais pessoas é inconcebível que a complexidade de um animal seja resultado de um processo incremental, bottom-up, de seleção mecânica de melhorais acidentais. Da mesma forma que a complexidade de um artefato tecnológico sofisticado é produto da inteligência humana, o “design” de um bicho só pode ser produto de alguma inteligência, concluem. Infelizmente, para elas, o processo humano de criar tecnologia é mais parecido com seleção natural do que elas gostariam que fosse. Tem mais a ver com preservar o que dá certo, jogar fora o que dá errado, experimentar, experimentar, e ver onde vai dar, do que com concepções platônicas. Como diria Thomas Edison, “gênio é 1% inspiração e 99% transpiração”. Mas estou divergindo...

    Quem duvida de Seleção Natural precisava ver o código do Comédia Player.

    abril 30, 2008

    Uma visão das coisas por vir

    Hoje houve reunião com todos os times do Windows, para cada um apresentar as novidades que terá no Windows 7.

    Gente, a próxima versão do Windows está bem bacana! Tem um monte de novidades bem legais. É claro que sou suspeito para falar, mas acho que você vai gostar dela — bem mais do que do Vista, o que não quer dizer muito, faça o favor.

    Só tem uma coisa: como diria o chefe Brody, “você vai precisar de um barco maior”.

    ***

    P.S. Se você sacou a referência do parágrafo anterior antes de começar a ler este daqui, parabéns! Você deve ser um cinéfilo do primeiro escalão. E se você só sacou agora, depois de saber que se trata de uma referência cinematográfica, sinto muito, você não ganha nada. Mais sorte da próxima vez.

    maio 22, 2008

    Não que haja algo errado com isso

    Dois colegas do trabalho conversavam sobre os benefícios do plano de saúde da Microsoft, só que peguei a conversa no meio.

    — Parece que o plano paga a cirurgia uma única vez, hehe!

    Achei que eles falavam sobre a ajuda de custo para cirurgia de correção de vista, que, de fato, só pode ser usada uma vez.

    — O quê? LASIK?

    — Não, hahaha, cirurgia de mudança de sexo!

    Não deixei por menos.

    — Bem, se você quiser fazer com laser, o problema é seu...

    junho 19, 2008

    ½ Ambiente

    A Microsoft trocou os copos de isopor (direita) por copos de papel biodegradável (esquerda). Mais um exemplo da nova consciência ambiental das grandes corporações. Bacana, não é?

    Só fica uma dúvida...

    Copos biodegradáveis são uma ótima alternativa para o problema do lixo sólido. O problema é que lixo sólido não é o problema. Aquecimento global é o problema. Lixo sólido é apenas uma parcela desse problema maior; e uma parcela pequena. As maiores parcelas do problema do aquecimento global ainda são (a) queima de combustíveis fósseis como fonte de energia, e (b) desmatamento. De modo que, se uma coisa gera menos lixo no final, mas consome mais energia e recursos para produzir no começo, talvez essa coisa não seja melhor para o ambiente. Daí, de acordo com uns estudos aí, copos de papel consomem bem mais recursos naturais e energia para produzir do que o equivalente em copos de isopor. Por outro lado, isopor, se não for reciclado apropriadamente, é um poluente péssimo, que dura para sempre.

    Qual é pior? Não sei. Só espero que a gente tenha tomado a decisão certa. Na dúvida continuarei usando minha xícara não descartável. Ironicamente ela tem impressa uma frase do Einstein que diz assim: “insanidade: fazer a mesma coisa sempre e esperar resultados diferentes”.

    ½ Ambiente 2

    Em resposta à recomendação de não usar as novas colheres biodegradáveis da Microsoft para misturar o café...

    TARDE DEMAIS

    Já usei.

    Aliás, achei o efeito fantástico. Descobri que posso fazer arte moderna com os novos talheres e um pouco de água quente. A peça abaixo eu chamo de “Alce”.

    O MOMA que me aguarde.

    junho 25, 2008

    Groovy

    Hoje rolou uma festa ao ar livre lá no trabalho, a WWL Summer Fest, do grupo do Windows, para celebrar o verão e o término de outra fase do projeto, não necessariamente nesta ordem de prioridades.


    A festa durava duas horas. A cerveja acabou em quarenta minutos. Quarenta minutos?! Uau, isso sim que é planejamento!


    O mais engraçado é que, depois, alguém abriu um bug para reportar o problema da falta de cerveja, HAHAHAHA — é claro, só é engraçado se você for nerd.


    Ontem, meu grupo em particular, o “Dispositivos & Media”, teve uma reunião para os times demonstrarem o que fizeram neste período. Foi dolorido de ver. Nem tudo funcionou. Aliás, bem pouco. Houve vários problemas técnicos. Ficou a certeza de que o produto ainda tem um longo caminho antes do lançamento.


    Para adicionar insulto à ferida, os apresentadores resolveram fazer uns teatrinhos durante as demonstrações — isso é, palhaçadas, sabe?


    Sou da opinião que se você vai demonstrar algo, primeiro garanta a parte técnica, e só então adicione o teatrinho. É como um número de mágica: não há encenação, por melhor que seja, que compense um truque tosco, pelo contrário. Se a parte técnica estiver impecável, seu time tem todo o direito de fazer brincadeiras, para ostentar mesmo. Por outro lado, se a parte técnica está frágil, seja modesto, pois é angustiante assistir a um gerente disfarçado de Ozzy Osbourne debater-se por intermináveis vinte minutos para não conseguir fazer funcionar algo que deveria levar cinco minutos. Sabe aquela piada que é muito engraçada nos primeiros dez segundos, mas daí fica muito estranha, muito rápido, e só vai piorando, e ainda falta um tempão para acabar? Ou sabe aquele peixe bobo que pula fora do aquário, mas você não tem como alcançá-lo, e ele fica lá no chão sofrendo, demorando para morrer? Pois é, foi assim. Se eu andasse armado, tinha dado um tiro na criatura, para acabar com a agonia dela. E eu que achei que a Gizele Madoninha tinha acabado com minha vergonha alheia. Grande engano.

    junho 27, 2008

    A César - 2

    Sobre aquele caso de ontem, a coisa continua melhorando.


    Hoje um dos líderes de desenvolvimento daquele certo grupo, daquela certa corporação, não apenas aceitou o desafio do diretor, como assinou embaixo. Para adicionar mais “tempero à disputa” — nas palavras do mesmo — ele incrementou o desafio para seu time, para que cada um de seus desenvolvedores conserte mais do que 5 bugs até a próxima segunda-feira, que é a meta que ele espera atingir ele mesmo.


    Ele até gastou tempo fazendo um gráfico pizza no Excel.



    Como você sabe, nada bate a eloqüência de um gráfico pizza na hora de representar uma fração simples.


    Uma imagem vale por mil palavras — desculpe se não fiz um gráfico pizza para facilitar a compreensão desta idéia; você terá que se esforçar um pouco.


    É claro, tudo isso é uma situação hipotética, imagine. O que você pensou?


    Afinal, qualquer um que tenha lido qualquer livro sobre gerência de projetos de software sabe que é uma péssima idéia avaliar desenvolvedores pelo número de bugs que eles resolvem, pois isso cria um incentivo perverso que apenas resultará em mais bugs. E você nem precisa que seus desenvolvedores sejam particularmente maliciosos ou trapaceiros, pelo contrário, eles podem ser os mais bem intencionados e profissionais do mundo, basta que você incentive os resultados errados.


    Por exemplo, imagine um desenvolvedor hipotético nesta situação hipotética — vamos chamá-lo de... er... Telles.


    Esta semana Telles consertou três bugs. Para cada um Telles criou também um teste automatizado, para verificar o conserto. Testes automatizados não são necessários para declarar o conserto feito, e tomam tempo para criar, mas, a longo prazo, são uma solução muito barata e eficiente para garantir a qualidade do produto.


    Hoje Telles consertou outro bug. Ele não tinha dúvida de que a melhor opção seria criar um teste automatizado para acompanhar o conserto... até o momento em que o diretor e o líder fizeram o desafio pressionando por números. Agora Telles não tem dúvida de que a melhor opção é consertar o bug o mais rápido possível e seguir em frente. Afinal, de nada adianta investir em qualidade futura se ele não conseguir uma boa avaliação de performance agora. Telles não está sendo particularmente maligno ou trapaceiro — afinal, a criação de testes automatizados é opcional. Ele está apenas reagindo aos incentivos e condições presentes.


    Ironicamente, porque a qualidade não tende a melhorar, os bugs continuarão vindo em grande número, o que apenas confirmará a decisão que o diretor e o líder tomam agora: “Se não tivéssemos pressionado por números daquela vez, hoje teríamos ainda mais bugs para consertar”.


    Ainda bem que é uma situação... coff-coff... hipotética.

    julho 29, 2008

    Stop de insanity!

    Como seria o sinal de “Stop” se fosse bolado por um comitê de uma grande corporação?




    Esse vídeo seria muito engraçado, não fosse tão triste. Se você acha que esse tipo de coisa não acontece, é porque não trabalha na mesma empresa que eu.

    agosto 2, 2008

    A longa semana que não aconteceu

    Esta semana, consertei dois bugs.
    Hoje de manhã, sábado, fui trabalhar.
    Queria consertar pelo menos mais um bug.
    Não consertei nenhum.
    Ao invés, achei mais dois.
    Balanço final: zero.

    agosto 7, 2008

    Lá Vamos Nós Mais Uma Vez

    Aproveitando o clima olímpico, o pessoal do Windows decidiu lançar a bug olympics, uma competição com prêmios para incentivar o pessoal a achar e consertar bugs.

    Achar e consertar bugs é importantíssimo, mas às vezes eu gostaria que focássemos menos em reagir a bugs lá na frente (ser menos bug driven) para focar mais em agir na qualidade desde o começo.


    Focar demais em bugs é como focar em remendar as rachaduras de uma represa sempre que ela começa a vazar água, sem jamais questionar se as rachaduras são mesmo o problema, ou a indicação de um problema maior na infra-estrutura. Bugs deveriam ser tratados como indicações de problemas na qualidade do produto, e não como um jogo de Whac-a-Mole (Marrete a Toupeira). Qualidade é uma coisa que você aplica desde o começo, de dentro para fora, e não uma tinta mágica que você retoca depois, um ponto aqui, outro ali, e ela milagrosamente penetra a estrutura inteira.


    O problema de uma competição focada em bugs é que ela transmite a mensagem implícita de que não se deve perder tempo em ações preventivas, pois bugs prevenidos não dão prêmios. É uma situação ridícula esta na qual quem conserta mais bugs é mais bem visto do que quem escreve código com menos bugs para começar.

    novembro 3, 2008

    Janta

    Hoje tenho que trabalhar até mais tarde para capinar bugs do Windows 7.

    Ainda bem que tenho muitas opções de janta por aqui. Vejamos, posso escolher entre porcaria em dobro, ou porcaria em dose normal — que, não obstante, é apresentada como “porcaria reduzida”.

    novembro 17, 2008

    A gente não falha (a não ser epicamente)

    Eu queria documentação sobre a macro __FUNCTION__ do C++, então fui procurar no MSDN, o site da Microsoft focado em desenvolvimento de software.

    O que são macros do C++ não vem ao caso, você só precisa saber que isso existe, que há uma de nome __FUNCTION__, e que o MSDN é o principal site de referência para quem usa C++ para programar para o Windows.

    Fiz a busca. O autocomplete até entrou em ação e me fez acreditar, por alguns segundos, que o site realmente sabia o que eu queria. Mas daí os resultados vieram e não tinham nada a ver com a busca. Aliás, não podiam estar mais longe do alvo.

    O problema, veja só, é que o site ignora os caracteres de sublinhado no início e fim do termo, de modo que você acaba buscando mesmo por “function”, que é muito, muito, muito genérico.

    Até entenderia se fosse uma busca no live.com, o site geral de busca da Microsoft, mas o MSDN é específico a um domínio, o de desenvolvimento de software. Se há uma coisa que a ferramenta tinha que fazer certo é diferenciar terminologia das linguagens de programação suportadas pela Microsoft.

    Então resolvi procurar pelo Google. Para provocar, ao invés de clicar no botão “Google Search”, cliquei no “I’m Feeling Lucky”. O Google achou uma página de primeira! Adivinha em qual site?

    :), mas :(

    janeiro 6, 2009

    Pega Leve

    Se engenheiros de software projetassem carros, eis o que fariam caso o cliente pedisse uma "versão mais leve" do produto.

    Se você acha isso exagero, é porque não conhece um certo software que eu conheço...

    setembro 5, 2009

    Para Adicionar Insulto ao Ferimento

    Tirei esta foto da Adri e da Débora usando seus respectivos iPhones porque a cena me lembrou do ideal com que Bill Gates começou seu império: “um computador em cada escritório e em cada casa [rodando software da Microsoft]”.



    Outro dia meu gerente foi a uma apresentação na qual disseram que a previsão para 2010 é que o mercado de iPhones será tão lucrativo quanto o mercado de Windows.

    Fiquei de cara, como pode? O Windows roda em quase todos os computadores pessoais do planeta, coisa assim como 93% deles.

    A previsão começa a fazer sentido quando consideramos que a margem de lucro da Microsoft por cópia do Windows é bem menor (muito menor) que a margem da Apple por iPhone. Ainda, telefones celulares tendem a ser mais pessoais que computadores: famílias onde se compartilha um computador, e cada pessoa tem seu próprio celular. No final de 2008, estima-se, havia 4,1 bilhões de assinaturas de celular no planeta. O fato é que o número de celulares cresce mais rápido que o de computadores. Todo mundo quer seu próprio celular, e se for um iPhone, melhor ainda.

    Pois é, acho que alguém esqueceu de atualizar aquele ideal do Bill para “um celular para cada pessoa [rodando software da Microsoft]”. Se atualizaram, foi um pouco tarde.

    Detalhe: a foto acima tirei com meu celular, adivinha qual.

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